123Milhas: o que aconteceu e a lição para quem vende
O caso 123Milhas é o motivo pelo qual quase todo mundo que vende milhas hoje desconfia de todo mundo — inclusive de nós, e com razão. Vale conhecer a história em datas e números públicos, porque a lição prática dela não é “não venda milhas”: é entenda o que um prazo de pagamento realmente é.
A linha do tempo, em fatos públicos
Agosto de 2023. A 123Milhas, então uma das maiores agências do país, suspende os pacotes da linha promocional e, em 29/08/2023, o grupo protocola pedido de recuperação judicial no Tribunal de Justiça de Minas Gerais — deferido dois dias depois. O grupo inclui a 123Milhas, a HotMilhas (o braço que comprava milhas do público), a MaxMilhas, a Novum e a LH Lance Hotéis.
O tamanho do problema. No processo, o grupo declarou cerca de R$ 2,4 bilhões em dívidas, com aproximadamente 800 mil credores — consumidores que pagaram por viagens não entregues e também pessoas que venderam milhas e não receberam. A HotMilhas comunicou publicamente que as negociações aprovadas até 29/08/2023 tiveram os pagamentos suspensos pela recuperação judicial.
Fevereiro de 2026. Após mais de dois anos sem assembleia de credores, o grupo começou a enviar propostas de acordo diretamente aos credores. As opções divulgadas pela imprensa: receber o valor integral em cashback para usar na própria plataforma, ou receber em dinheiro com 40% de desconto, em 12 parcelas semestrais começando em 18 meses — na prática, um horizonte de cerca de sete anos e meio.
Agosto de 2026 (hoje). A assembleia geral de credores segue sem data marcada e a fase de verificação de créditos continua. Quem tem crédito a habilitar deve fazê-lo apenas pelo site oficial dos administradores judiciais.
O detalhe que interessa a quem vende milhas
No meio dessa história toda, há um grupo específico de prejudicados que raramente ganha manchete: os vendedores de milhas da HotMilhas. O modelo era conhecido: quanto maior o prazo aceito para receber — 30, 60, 90, até 150 dias —, maior o valor pago pelo milheiro.
Quando a recuperação judicial chegou, quem tinha aceitado prazos longos estava, sem saber, na pior posição possível: as milhas já tinham saído, o dinheiro ainda não tinha entrado, e o “combinado” virou um crédito a habilitar num processo judicial — sujeito a deságio e a anos de espera, como a proposta de 2026 mostrou.
A lição estrutural: prazo é empréstimo
Aqui está o ponto que este blog repete sem cansar: prazo de pagamento é crédito que você concede à empresa. O preço maior oferecido pelo prazo maior é o juro desse empréstimo — e todo empréstimo embute a pergunta: e se o devedor não puder pagar lá na frente?
Isso não significa que toda empresa que paga a prazo vá quebrar. Significa que o vendedor deve precificar o risco conscientemente, e a maioria não sabia que estava correndo risco nenhum. Três consequências práticas:
- Compare propostas pelo par preço + prazo, nunca pelo preço sozinho. Escrevemos um guia só sobre prazos.
- Prefira janelas curtas de exposição. Quanto menos tempo entre a saída das milhas e a entrada do dinheiro, menor a chance de um evento no meio. É a razão de o nosso compromisso ser PIX em até 24 horas — não é conveniência, é desenho de risco.
- Exija tudo por escrito. Contrato não impede uma recuperação judicial, mas define seu crédito com clareza e é a base de qualquer cobrança. O que ele precisa conter está aqui.
O que mudou no mercado desde então
O colapso reorganizou o setor de formas visíveis até hoje: o público passou a pesquisar “é confiável” antes de qualquer cotação (faça isso mesmo, sempre); prazos longos com prêmio gordo perderam apelo; e empresas novas — nós incluídos — construíram o modelo na direção oposta: pagamento rápido, preço público com data na cotação, formalização antes de qualquer movimentação. A desconfiança que o caso deixou é saudável. Use-a como filtro, não como paralisia.
Fatos e números conferidos em 06/08/2026 nas seguintes fontes públicas: InfoMoney — 123 Milhas envia proposta para pagar credores em mais de sete anos e com desconto; Panrotas — 123 Milhas propõe acordo para credores com pagamentos em quase 8 anos (fev/2026); Mercado & Eventos — Recuperação judicial da 123 Milhas atinge dois anos sem assembleia e reúne mais de 800 mil credores; HotMilhas — esclarecimento oficial sobre pagamentos e RJ. Processo em andamento — os números podem mudar; confira a data desta revisão.
Perguntas frequentes
A 123Milhas ainda deve? O processo acabou?
Não acabou. Em 08/2026 a recuperação judicial segue em andamento, com propostas de acordo enviadas aos credores em fevereiro de 2026 e assembleia ainda sem data. As dívidas declaradas somam cerca de R$ 2,4 bilhões.
HotMilhas e 123Milhas são a mesma empresa?
São empresas do mesmo grupo econômico, que entrou junto em recuperação judicial em 2023. A HotMilhas era o braço de compra de milhas do público. A empresa afirma que as negociações feitas após 30/08/2023 vêm sendo pagas normalmente conforme o prazo escolhido; as anteriores entraram no processo judicial.
Vendi milhas para a HotMilhas antes de agosto/2023 e não recebi. O que faço?
Habilite ou confira seu crédito exclusivamente pelo site oficial dos administradores judiciais do processo (rj123milhas.com.br) e avalie a proposta de acordo com atenção aos descontos e prazos. Desconfie de intermediários cobrando para “acelerar” o recebimento — o processo é público e a adesão é gratuita, via gov.br.
Isso significa que vender milhas é inseguro?
Significa que vender a prazo longo, sem contrato e sem conhecer a saúde de quem compra é inseguro. A negociação em si é comum e pode ser feita com proteções: preço por escrito, janela curta entre entrega e pagamento, PIX na conta do titular. Os sinais de alerta estão neste guia.
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